---------- Forwarded message ----------
From: Matheus Tait <matheus_tait@*****.com.br>
Date: 2009/5/19
Subject: [radiomuda] Desabafo: Segurança de repúblicas em Barão Geraldo
To: radiomuda@lists.riseup.net



Bom dia Mudeiros,

Deixo aqui meu desabafo.


O ocorrido. Semana passada entrei pras estatísticas: minha república foi assaltada. Levaram quase tudo que juntamos nos últimos 10 anos de trabalho duro (metade dos quais sem férias por ser estágio). Os assaltantes fizeram um belo terrorismo conosco, armados, e ainda se comportando como se tivessem algum direito moral em fazer isso. Falavam coisas do tipo: "quem manda ter tanta coisa playboy, vai lá conseguir de novo, vai". Isso por que tudo que acumulei em anos eles levaram em 20 minutos. Ficamos paranóicos agora, medo até da própria sombra. Se bobear vamos nos mudar pra apartamento (cogitei largar emprego se isso ocorrer devido ao trampo de morar fora de Barão e vir pra cá todo dia).

 

Detalhe engraçado: na hora de roubar as roupas, eles estavam pegando uma jaqueta da Unicamp e quando viram o logo da faculdade desistiram comentando algo do gênero: “Não curto Unicamp, quando passo por lá me olham como se eu fosse um marginal q faria algo com eles”. O cara disse isso com uma arma apontada pra cabeça de um de nós.

 

E a seguradora? O Banco Real, com quem tínhamos seguro há anos e nunca atrasamos pagamento, cancelou nosso contrato no meio (sim, já tínhamos pago esse ano) dizendo que não aceitam mais repúblicas. Cancelaram avisando por carta. E  2 semanas antes do ocorrido. Todos os anos que pagamos em dia são esquecidos e eles têm todo direito legal de escolher quem eles protegem e quando, e de parar de proteger avisando por carta a qualquer momento.

 

E a policia? Mesmo Barão tendo uma taxa de assaltos à estudantes absurda (ouvimos na delegacia que esta na casa de centenas por mês, 17 apenas na quinta feira quando estivemos lá), a nossa delegacia fecha à tardinha. Temos que chamar de outro bairro que demora quase uma hora. Chegam e dizem: "não ha o que fazermos!" (que tal aproveitar que ocorreu logo e procurar o carro no bairro? só eu tive essa idéia?). Mandam ir fazer BO no distrito (lá no Taquaral). Perguntamos se não podia ser ali mesmo e até poderia, mas dá muito trabalho pra eles. Nós temos que arranjar dinheiro sabe-se lá onde (roubaram tudo que tínhamos) e ir de taxi (já que o transporte coletivo de Campinas estava parado, sob ameaça de armas contra os fura-greve que estavam sendo atacados). Os policiais vão embora pra casa logo depois, sem fazer NADA. Nem entraram na casa, não fizeram ronda, não fizeram BO.

 

E os moradores não estudantes? Pagam guardas particulares, muito comuns aqui. É como se fosse normal não ter policia no bairro e quem tem dinheiro pagar suas milícias pra se defender. Esqueçam impostos, esqueçam direitos civis...

 

E a guarda particular? Passa em casa logo depois do ocorrido e diz: "Viu só? Isso é pra aprenderem a nos pagar daqui pra frente", e sai rindo e cantando pneu.

 

E os estudantes? Se viram, perdem tudo, ficam com trauma pra morar em casas, pagam mais dos apartamentos (que aqui são absurdamente super-valorizados). Muitos mudam sua posição política e começam a falar em pena de morte, justiceiros, etc (não foi o meu caso, ainda bem).

 

Enquanto isso, o ciclo se fecha.  Revoltante... o circulo vicioso continua:

- guardinhas cobram grana de proteção,

- assaltantes tem seu ganha pão garantido,

- policia finge que não vê e deixa o bairro à tarde,

- ricos pagam suas milícias.

- algumas centenas de assaltos acontecem a estudantes,

- o status quo é mantido: guardas particulares têm motivos (o terror garantido pelos assaltantes) pra cobrar dos ricos, e assaltantes continuam com ganha-pão que se renova a cada ano com novos estudantes que chegam.

 

Epílogo. O pior é que não somos exceção e sim regra, conversado depois do ocorrido vimos que essa realidade é muito mais comum do que se imagina aqui.

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"I don't want to achieve immortality through my work.
I want to achieve it through not dying."
(Woody Allen)